Como fui reprovado por inglês e resolvi isso em 6 meses

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2020, estávamos completamente isolados em casa após a pandemia do Covid-19. Abro meu LinkedIn e estava repleto de recrutadores enviando mensagens em busca da minha expertise.

Apesar de já ter experiência em projetos internacionais, a comunicação sempre acontecia via mensagens de texto. A grande maioria vinha de freelance. Eu estava começando uma jornada de realizar entrevistas técnicas e de RH totalmente em inglês.

Foi aí que um recrutador da Runa me liga. Achei estranho porque já começou falando em inglês. Me explicou que tinha uma oportunidade e queria fazer uma entrevista via video call. Marcamos para dois dias depois.

Na call, tinha mais um engenheiro senior junto. Foi tranquilo. A vaga era para tech lead alocado em São Paulo/México. A proposta era muito boa: R$20k + bônus.

Saí aprovado e fui chamado para a segunda etapa em SP. Viajei até lá e fui ao escritório na Vila Mariana para a entrevista técnica mais pesada.

O desafio era complexo e tinha uma pegadinha: resolver um problema real e liderar o time remotamente ali mesmo. Eu não estava esperando este nível de teste. Meu inglês também não era bom o suficiente para a vaga.

Uma semana depois, o recrutador me ligou. Disse que minha parte técnica foi muito boa, porém meu inglês e comunicação estavam bem abaixo do esperado. Tinha vagas para engenheiro senior, mas ele me indicou que eu focasse em melhorar meu nível de inglês e tentasse novamente em 6 meses.

Recebi um balde de água gelada.

Eu não tinha aplicado para a vaga, mas depois desse processo seletivo eu estava animado. Saber que tecnicamente eu estava pronto para liderar um time internacional, mas que meu inglês era uma merda, me deixou frustrado.

Foi aí que comecei a procurar formas de melhorar meu nível de inglês em pouco tempo. Eu sabia me comunicar, porém muito lento, com toneladas de erros gramaticais. Falava rápido às vezes para tentar suprimir esses erros.

Com uma breve pesquisa no YouTube, encontrei este vídeo do Akita. Eu já o acompanhava por ter trabalhado com Rails. Entender que o processo de atingir fluência era possível e autodidata me fez decidir encarar o desafio.


A base primeiro

Comecei focando na base da língua: verbos, estruturação de frases e conversas sobre assuntos gerais.

A ideia era refinar o que eu já sabia. O que eu sabia tinha que ficar bom.

Usei a Cambly. Gastei uns $600 fazendo aulas e conversando com diferentes pessoas. A maioria já eram professores e foi tranquilo. Quando passei o que queria melhorar, eles foram automaticamente refinando meu inglês.

Logo após, caí de cabeça em mudar tudo para inglês. Até minha televisão. Eu não tinha como falar inglês todos os dias, mas tentava me comunicar em inglês sempre que possível: comentando projetos open source, participando de comunidades.

Fiz amizade com um cara na Califórnia que estava construindo uma startup. Fazíamos uma troca: eu era tech advisor e ele me ajudava com inglês. Isso foi um divisor de águas. Em 6 meses, para conversação natural do dia a dia, eu já estava bem desenrolado.


Minha rotina atual

Ao acordar, leio um livro em inglês. Na maioria das vezes, livros técnicos. Depois leio artigos em sites como HackerNews e faço um breve sumário do que entendi, escrevendo em inglês e falando em voz alta.

Nos momentos de folga, como almoço, assisto vídeos no YouTube todos em inglês. Vídeos de "Day in the life" me ajudam a pegar os jargões e slang do dia a dia. Entendo uns 60-70%.

Durante a noite, assisto séries em inglês legendadas com minha esposa. Atualmente estamos assistindo The Ranch. Um sotaque totalmente complexo de entender, que às vezes chega a doer minha cabeça.


Os erros que mais me atrasaram

Sempre me subestimei. Achava que ninguém ia me entender. Sempre empurrei a decisão de aplicar para vagas internacionais para depois. Erro gigante. Em 5 anos trabalhando para fora, só encontrei pessoas que me encorajaram. Ninguém nunca riu do meu inglês ou fez cara feia pro meu sotaque.

Achava que tinha que entender 100% de primeira. Isso não existe nem em português. Comunicação é difícil. Fazer perguntas é essencial. Quantas vezes em reuniões em português você pede para repetirem? Em inglês é a mesma coisa.

Demorei demais para começar a aplicar. Fiquei esperando o inglês perfeito que nunca chegou. Enquanto isso, perdi oportunidades.


Preparando-se para entrevistas técnicas

Frases que salvam vidas

Grave essas frases. Elas vão te salvar quando travar:

  • "Could you repeat that, please?"
  • "Let me make sure I understood..."
  • "I'm thinking through this problem..."
  • "My approach would be..."

Quando você não entende a pergunta

O pior erro é fingir que entendeu. Entrevistadores preferem mil vezes alguém que pede clarificação do que alguém que responde a pergunta errada.

Jeito errado: "Uh... yes... I think... maybe..." e começa a codar algo aleatório.

Jeito certo: "I want to make sure I understand the requirements. Are you asking me to...?"

Template para respostas comportamentais

A maioria das perguntas comportamentais segue o formato STAR. Prepare histórias simples:

  • Situation: "At my current job..."
  • Task: "I needed to..."
  • Action: "So I decided to..."
  • Result: "This led to..."

Palavras simples. Frases curtas. Clareza total.


Vencendo a barreira psicológica

O que mais trava brasileiros não é vocabulário. É medo. Medo de errar. Medo do sotaque. Medo de parecer burro.

Seu sotaque é uma vantagem. Mostra que você fala pelo menos duas línguas. Quantos americanos monolíngues você conhece?

Três passos para perder o medo:

  1. Comece errando em ambientes seguros: Discord servers de devs, calls com amigos
  2. Aceite que vai errar para sempre. Até hoje falo "I have 27 years" às vezes
  3. Foque em ser entendido, não em ser perfeito. Se a mensagem passou, missão cumprida

Conteúdo técnico para consumir hoje

Canais no YouTube:

  • WebDevCody
  • ByteByteGo
  • Hello Interview
  • Starter Story
  • A Life Engineered
  • Andrej Karpathy

Podcasts:

  • The Pragmatic Engineer
  • Refactoring Podcast
  • The Peterman Pod
  • Soft Skills Engineering
  • Front End Happy Hour
  • Latent Space: The AI Engineer Podcast
  • localfirst.fm
  • Lenny's Podcast
  • The Knowledge Project
  • Deep Questions with Cal Newport

Comunidades:

  • Taro
  • Reactiflux

Participar de comunidades com eventos ao vivo que te interessam ajuda muito. Não precisa ser necessariamente voltado para TI, embora ajude caso seu objetivo seja a internacionalização da carreira.


Seu próximo passo

Não saia desse artigo sem fazer algo prático:

  1. Mude a linguagem do seu celular e computador para inglês (1 minuto)
  2. Assista um vídeo de 10 minutos sobre seu framework favorito em inglês (10 minutos)
  3. Escreva um comentário em inglês no seu próximo PR (2 minutos)
  4. Marque uma reunião 1:1 com alguém da empresa para praticar inglês (1 email)

O segredo não é estudar mais. É praticar mais.


Resumo

Esqueça certificados e gramática perfeita. Empresas querem comunicação clara, não diplomas. Foque em ser entendido usando palavras simples. Seu sotaque é normal e aceitável.

O caminho efetivo tem duas fases: base sólida nos primeiros 3 meses, depois imersão inteligente dos 3 aos 6 meses. Aulas para o básico (verbos, estrutura, vocabulário), depois prática (YouTube, entretenimento, conversação no trabalho).

Prepare-se especificamente para entrevistas. Tenha frases prontas e pratique com AI. Aprenda a pedir clarificação sem medo. Use estrutura STAR com palavras simples.

Você pode estar fazendo entrevistas internacionais mais cedo do que imagina. Ou pode estar procurando o curso perfeito. A escolha é sua.

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